terça-feira, 28 de maio de 2013

Neuroplasticidade cerebral








Quem disse que  “não se pode ensinar truques novos a um cachorro velho”?


Neuroplasticidade ou remapeamento cortical é a capacidade do cérebro de modificar sua estrutura e função, em decorrência de experiências anteriores.
 Estas experiências podem ser o processo de aprendizado, um trauma ou lesão, devido o cérebro ser “plástico” e “maleável”. A descoberta dessa característica é recente e desafia a crença anterior entre cientistas de que o cérebro não muda após a infância. 

Por meio de pesquisas científicas sabe-se atualmente que por mais que o cérebro seja incapaz de se regenerar ele pode se organizar. Isso pode ocorrer através da neuroplasticidade neuronal, onde novas conexões podem ser feitas através de um rearranjo dos neurônios em estímulos adequados e intensos.



 "Mesmo  que o cérebro não consiga reconstruir o tecido afetado ou perdido,  ele é capaz de usar o que sobrou e modificar a maneira como essas regiões restantes do cérebro são usadas. A base  disso tudo é o uso. A reorganização funcional do cérebro acontece quando existe demanda, ou seja, quando  nós insistimos em  resolver um problema." HOUZEL (2010)







Neuroplasticidade cerebral é um assunto que me chamou bastante atenção em minha formação acadêmica. Interessei-me  sobre este assunto ao estudar sobre os sentidos.  O estímulo maior foi através da primeira tentativa de elaboração de  um artigo científico sugerido pelos professores. Escolhi o tema paralisia cerebral grave após visitar uma instituição que atendia crianças nestas condições. Através de entrevista semi - estruturadas encontrei meu objeto de estudo. Durante a pesquisa de campo optei pelo estudo de caso. Comecei a observar uma criança que me chamou bastante atenção. A criança antes de começar a chorar apresentava crise de risos simultaneamente.  Buscando mais informações sobre esta criança, pude entrar em contato com os profissionais e as cuidadoras que trabalhavam no local.  O objetivo principal dos profissionais era controlar as reações emocionais das crianças que estariam dando muito trabalho para as cuidadoras. A alternativa utilizada  seria trabalhar os sentidos.  A criança com paralisia cerebral grave não pode correr ou fazer tudo que uma outra criança faz. O tempo inteiro algumas delas permanecem acamadas e outras  em berços com grades para que não se machuquem diante da sua movimentação física.

  “Paralisia Cerebral (PC) na infância é conseqüência de uma lesão estática,
ocorrida no período pré, peri ou pós-natal que afeta o sistema nervoso central em fase de maturação estrutural e funcional da criança (WHO, 1999).
 Pode ser considerado como um distúrbio ou transtorno dos movimentos e da postura, que não regride e não progride, e assim não se caracteriza como doença ou síndrome. Pode trazer dificuldades nos movimentos, na locomoção, audição e visão do bebê. Mas em 90% dos casos, a inteligência de que tem PC é preservada.
-      A paralisia cerebral não é contagiosa
-     A pessoa portadora da paralisia cerebral tem inteligência normal, a não ser que a lesão tenha afetado áreas do cérebro responsáveis pelo pensamento e memória. Se a pessoa portadora de paralisia tiver sua visão ou audição prejudicada pela lesão, terá dificuldades para entender as informações como normalmente são transmitidas; se os músculos da fala forem atingidos, terá dificuldade para comunicar seus pensamentos ou necessidades. Quando tais fatos são observados, a pessoa portadora da paralisia cerebral pode ser erroneamente classificada como deficiente mental ou não inteligente. ( Trecho do artigo acadêmico)"

Na Instituição visitada, verificou-se que a  fisioterapia entra como fator preponderante para auxilia-las no processo de controle das emoções. A natação e o uso de buchinhas e outros  materiais que as auxiliem na percepção dos sentidos seria uma forma relevante de alcançar o objetivo. O investimento na percepção  dos sentidos seria a porta de entrada da psicologia que entraria estimulando a criança a achar um meio de se comunicar. A comunicação, então,  seria  aprendida através do processo de  neuroplasticidade cerebral, ou seja, as crianças seriam levadas  a trabalharem partes do cérebro que ainda não estivessem lesionadas e com isso descobrirem em seu corpo partes que pudesse ajuda-las na comunicação.Quando se trata de paralisia cerebral grave, a fala e outras partes do corpo se tornam comprometidas. A emoção dessas crianças é real e para auxilia-las tais profissionais tendem a investir na possibilidade que o próprio corpo  ainda oferece para tentar aliviar o sofrimento delas.

No trabalho de observação percebíamos que algumas crianças  se comunicavam através do olhar, outras através de um carinho ou toque na testa, na barriga, no rosto ou qualquer outra parte do corpo que as fazia reagir de forma a leva-las a se sentirem melhores. Aparentemente, para qualquer pessoas que visita crianças com paralisia cerebral grave, talvez achem que elas não tendem a perceber a presença ou os acontecimentos do ambiente, entretanto, entendendo um pouco mais sobre o que é a neuroplasticidade e suas implicações nas ações e reações do ser humano com o ambiente, pode-se entender que estas crianças  podem apresentar uma percepção bem aguçada do ambiente e das pessoas que as circulam. Tais percepções podem ser estimuladas determinando reações.  Entende-se , então, que o ser humano percorre todo o corpo humano para conseguir se comunicar e que o cérebro detém mecanismos para facilitar o processo.  Desta forma, mesmo com paralisia cerebral grave , a criança não deixa de apresentar um talento ou potencialidade.

Observa-se que em instituições que recebem criança com paralisia cerebral grave, existem crianças que chegam, por exemplo, rejeitando o toque. Na Instituição visitada, no trabalho da fisioterapia e da psicologia, muitas delas conseguem o caminho da comunicação através do estímulo dos sentidos na tentativa de auxiliá-las a descobrir em qual deles ela  poderia utilizar para se comunicar. O trabalho na piscina e a presença de música no ambiente seria também um dos recursos utilizados para tal finalidade. O estimulo a socialização também predomina. A carência e presença de pessoas que as visitem sempre foi muito marcante para as crianças segundo os profissionais e as cuidadoras, sendo de grande valia para o trabalho dos profissionais.  Elas sentem uma necessidade muito grande de receber visitas. 



Para exemplificar, durante o momento da investigação do caso,  pudemos presenciar  como o processo de neuroplasticidade cerebral estaria acontecendo. O fisioterapeuta ao atender uma criança informou que ela havia aprendido a gostar de ser tocada. A criança rejeitava o toque e no decorrer dos estímulos recebidos aprendeu a se comunicar através dele.  Ela  não havida recebido por parte dos pais nenhum estimulo de carinho ao nascer. 

Estimulando os sentidos, as crianças entendem que  podem  se comunicar. Acompanhar uma pessoa através do olhar e dar um sorriso seria um dos progressos alcançados pelas crianças. Outras haviam entendido que  a audição lhe trazia um determinado   prazer de ouvir música a ponto de sempre  chorarem  para estar perto do rádio. Um fato curioso observado é as cuidadoras faziam o papel de mãe conhecendo com maior profundidade a necessidade individual de cada criança e a forma de lhe dar com elas quando em crise, pois além da paralisia ainda tinha o fator emocional sendo tratado por psiquiatra.  Foi a partir do contato com as crianças que compreendi um pouco mais sobre a neuroplasticidade cerebral e percebi que poderia estudar mais sobre os sentidos e  suas implicações nas emoções . Percebi que o estudo deste assunto é escasso e que há muito o que fazer em pesquisas e em trabalhos para favorecer ou tentar trazer maior alívio neste tipo de  limitação existe em  crianças e adultos.

A neuropsicologia esclarece melhor sobre o funcionamento do cérebro,  trazendo  uma maior compreensão sobre o distúrbio neuro-motor severo , tal como a paralisia cerebral e como poderia  ocorrer o processo de neuroplasticidade cerebral.

Entender sobre neuroplasticidade neural, não significa que ela possa ocorrer apenas em processos patológicos, podendo  assumir um papel muito importante no funcionamento normal do sujeito.  A característica do SNC (Sistema Nervoso Central) é de  ser consideravelmente plástico durante toda a vida em situação patológica ou não. Verifica-se que o   cérebro tende a sofrer alterações o tempo inteiro e por isso sugere-se maiores estudos para compreender a complexidade de seu funcionamento.






Referência:



As implicações do sensorial no emocional a partir de estímulos em crianças com paralisia cerebral (Artigo acadêmico)




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